Trecho do livro

     “A palma fria da navalha tocava-lhe o rosto.  Fria como sua alma. De costas para a parede, parecia estar-lhe grudado da cabeça aos pés. Imóvel, silente, espera a hora de atacar. Arrisca olhar pelo corredor. Nada. Não era o momento. Tinha que esperar mais. Desde as dezoito horas estava escondido. Descolou a mão da parede para conferir no relógio. Ainda lhe restavam quarenta minutos, dos noventa.  Tudo dentro do programado.  Estava seguro. Essa seria a décima primeira vez e nunca houvera cometido uma falha. Ninguém sabia quem ele era, nenhum rastro, nenhuma pista. Definitivamente ele não sofria de ansiedade, sabia que o tempo certo estava prestes.

     A casa pequena era grande para um jovem casal e uma velha. O lado masculino do casal saiu para a escola há quinze minutos, um erro que quase atrapalha tudo. Ele tinha calculado tudo certo, o sujeito é que atrasou. Mas ficar escondido dentro das casas das vitimas também lhe excitava. O Zé Walter, inaugurado no ano setenta, era o maior conjunto residencial da América Latina naquela época. Todas as quatro mil e quatrocentas e vinte quatro casas nasceram quase iguais. Eram de quatro tipos, A, B, C e D. As primeiras eram prematuras, não tinham se formado por completo. O acabamento ficaria por conta dos proprietários. Só as do tipo D nasceram completas. Agora estávamos no ano oitenta e cinco, poucas residências conservavam sua originalidade simplesmente por falta de recursos de seus compradores. Aquela era uma delas. O chão era de cimento queimado. Avermelhado maugostamente, encerado esmeradamente.  Não havia forro e as paredes pintadas de verde lima não combinavam em nada com o piso, só o mau gosto. Na cozinha uma bateria pendurava quase uma dezena de panelas amassadas. Sobre o fogão Jangada uma frigideira e uma cuscuzeira guardavam as gororobas que sobraram desde o almoço. “Rolou bife-do-oião no cardápio”. Pensou. Uma mesa de madeira quadrada coberta com uma toalha de plástico muito fina, branco gelo com desenho de várias flores em azul turquesa. Havia uma cadeira em cada lado e em cima uma jarra-abacaxi que parecia ainda ter algum Ki-suco. Talvez de uva. Ele olhava a porta dos fundos, uma rota alternativa de fuga, fosse o caso. Reparava em cada detalhe, mas não perdia o foco do que fora fazer ali.

      Passos. Chinelas de dedo. Não tinha dúvidas, era ela, era a hora. E se tivesse de frente? Tinha que arriscar. Saltou rapidamente pelo corredor. Ela estava de costas. Perfeito. Um golpe certeiro, de cima para baixo, cortou-lhe a nádega esquerda. Com a outra mão empurrou a vitima fazendo-a cair de bruços. Saltou por cima da coitada, correu pela sala até o portão, de onde prosseguiu caminhando normalmente, como se nada tivesse acontecido. Virou a esquina e desapareceu.”

CONTINUA…

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